Para ler ouvindo : https://www.youtube.com/watch?v=d81M1guejXQ
Vinicius de Moraes - Canto de Ossanha
2014
Ventava fora da cabana um vento gélido. La fora pinheiros balançavam violentamente, parecendo frágeis e os ventos de inverno os chicoteavam. Demian* estava convenientemente protegido em sua cabana, iluminada por pequeninos abajures.
Que lugar seguro - Demian pensou.
Se aproximou da janela e passou a mão no vidro, para tirar o vapor que o impedia de olhar o começo de uma nova tempestade. Sorriu. Adorava ouvir o barulho da chuva. A cabana era um lugar novo que ele adquirira para ficar sozinho e em paz, meditando nos seus livros e as vezes, trazendo amigos para beber um vinho, fumar cigarros e ouvir música.
Se aproximou da janela e passou a mão no vidro, para tirar o vapor que o impedia de olhar o começo de uma nova tempestade. Sorriu. Adorava ouvir o barulho da chuva. A cabana era um lugar novo que ele adquirira para ficar sozinho e em paz, meditando nos seus livros e as vezes, trazendo amigos para beber um vinho, fumar cigarros e ouvir música.
Mas de repente, como um daqueles acontecimentos
inevitáveis promovidos pelo sarcasmo do destino, algo inesperável aconteceu: Um
sopro quente se aproximou. Um sopro que Demian já conhecia, porém, estava velho
e estranho. Esse vento costumava ser frio, agora estava quente. Era possuidor de um cheiro bom, mas agora, nada exalava.
Simplesmente adentrou a sala sem ser convidado.
-Por onde você, Vento velho, entrou? Deixei alguma brecha
aberta? Cadê seu cheiro que outrora me devorou?
Demian fechou os punhos e torceu os dedos, passando um nos outros, nervoso. Não estava tão seguro
quanto pensava.
Veio imediatamente à memória o perfume desse Vento.
Era adocicado e com leves toques cítricos. Um casamento/encontro de aromas não
necessariamente perfeitos, porém únicos. E hoje, esse vento trouxera novidades, estava
quente e sem cheiro. Como pode um sopro frio se tornar quente? Não ter mais cheiro?
- O que se deu para tamanha mudança? Talvez... talvez esteja insípido! Não, perdão,
insipidez é falta de gosto... Mas... Até que faz sentido...
Silêncio.
Ventos não respondem.
Demian sabia disso, sempre soube. Havia uma
barreira silenciosa entre ambos desde o começo. E as sucessões de
acontecimentos trágicos rapidamente vieram à mente de Demian. Lembrou que do
corpo quente saíram ondas de calor, ondas estas que se atrelaram ao ar do
ambiente, tornando-se cada vez maior. No dia, Demian abriu os braços e sentiu.
Sentiu no corpo o insano dessa vida. Pensou no absurdo que é não se poder ver o
Vento e ao mesmo tempo poder senti-lo. Só que, ainda inebriado, se deu conta de
que estava sozinho. Sozinho nessa experiência que poderia ser de algum modo
transformadora.
Faz sentido viver algo e não poder dividi-lo? Aliás, sentir, nesse caso específico, seria da
ordem do individual ou do coletivo? Nesse dia fechou os braços e olhou para os
lados, foi-se embora assim que pôde.
Confuso com o retorno desse Vento passado, Demian pensou
que qualquer pessoa sã, em seu lugar, fecharia a janela... não é?
- Vento, você ainda é o mesmo? Parece diferente...
Demian não sabia, mas esse Vento, caso mantivesse
as mesmas propriedades de antes, ao passar por ele em um novo dia, já havia se
tornado inevitavelmente outro. Pois se configurou o ato em um cenário singular,
atual. Não havia possibilidade alguma de que esse Vento provocasse tanta comoção
como provocara antes, pois já não era mais o mesmo, porque o momento não era
mais o mesmo... e ainda que fosse, Demian havia mudado. Embora ainda usasse seu
pijama antigo e permanecesse com suas velhas manias: café, exercícios noturnos
e leituras, Demian estava em um novo momento. Havia andado por outros caminhos,
visto e sentido novos Ventos, aprendera muitas coisas...
Vento e Demian, de frente um pro outro, já não eram
mais Vento e Demian. Eram agora completos estranhos, frutos oriundos das
infinitas formas e possibilidades que um homem nesta vida adquire ao longo do
caminho da sua própria existência.
Uma tempestade acontecia lá fora. Sentiu medo de
que ela entrasse junto com o Vento, que já estava lá, e desorganizasse tudo. Fecha-se a janela?
Demian tentou pensar rapidamente na resposta e chegou
a conclusão de que coisas importantes não vão embora, permanecem. Pois o que é necessário
fica, não dá meia volta. As experiências gratificantes tendem e estimulam repetições.
Finalmente falou: - O necessário teria ficado.
Finalmente falou: - O necessário teria ficado.
O Vento percebendo o olhar de Demian se retira.
Os músculos se relaxaram imediatamente. O perigo passou.
Demian sabia, esse Vento não entraria nunca mais na sua cabana, porque verdadeiramente nunca esteve lá. E mais tarde, através de uma epifania enquanto estava fazendo seu chá, entendeu que o cheiro do Vento nunca mudou, isso seria impossível. Ele, Demian, é que não podia mais senti-lo.
Sentou-se e pôs-se a escrever.
Os músculos se relaxaram imediatamente. O perigo passou.
Demian sabia, esse Vento não entraria nunca mais na sua cabana, porque verdadeiramente nunca esteve lá. E mais tarde, através de uma epifania enquanto estava fazendo seu chá, entendeu que o cheiro do Vento nunca mudou, isso seria impossível. Ele, Demian, é que não podia mais senti-lo.
Sentou-se e pôs-se a escrever.
O nome Demian foi inspirado no livro de Herman
Hesse*
