quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Harry



Para ler ouvindo: https://www.youtube.com/watch?v=Y4Ry_56bNGw
JORN - Living with Wolves


Ele fechou os olhos e ficou naquele vácuo do sono, cansaço o acompanhava por um tempo. Olhou para todos os lados e se viu cercado de vida, mas a vida real, não a que sempre desejou. Não se referia as dificuldades da vida, mas a vida em si. Tudo parecia uma grande piada, uma piada ruim, de mal gosto e insistentemente contada em uma mesa com restos do jantar. Mais um gole do vinho barato, mais uma taça, mais um dia e mais um final de dia. Tudo ao contrário, tudo opostamente milimetrado para a encenação da peça ruim que tinha se tornado sua vida. Ao fechar-se as cortinas das pálpebras, um velho dia se encerrava e um novo dia o violentava com o sol da manhã. Acreditava que a claridade era o impulso natural do dia que o forçava a fazer algo, mesmo que esse algo não significasse absolutamente nada. Olhou pra janela. E o que via era diferente das imagens que viu quando criança, agora era diferente, via prédios e -eis aí a grande piada- algo ali era bastante similar. O vazio da vista era preciso, cheio de coisas que não havia escolhido, alheias a ele. Se perguntou o porquê de estar ali. Naquela época, naquele dia, naquela estação, naquela cidade e com aquelas questões. Mais um dia se acabou. Abriam-se as cortinas, fechavam-se as cortinas e nada, nada o fazia acreditar que o espetáculo era de fato importante. Inútil- pensava consigo mesmo. Até quando colaboraria para que as coisas seguissem rumo ao precipício? Até quando largaria as mãos do volante e taparia os olhos? Até quando ficaria satisfeito com os aplausos dos espectadores?
Criou pra si histórias, histórias com personagens interessantes, personagens que não sabiam desistir porque o fim era certo e era bom. Mas na vida real é esta uma possibilidade? Claro que não. Seus sonhos sempre foram irreais porque sempre se sentiu fora do contexto, fora do usual, fora das rimas. Se fosse feito um poema o seria feito no tom de Augusto dos Anjos: cru, intenso, visceral, triste. Uma vida colocada no livro que não queria estar, e que se pudesse escolheria outro. Opa, é possível? É possível desenhar a própria vida como se desenha um boneco de palitos? Seria possível fazer escolhas, mesmo que absurdas, e poder tocá-las na realidade? Era de fato possível realizar sonhos? Não sabia ao certo. O que sabia era que se sentia preso, como se os pés estivessem enterrados em cimento fresco. Se ficasse ali iria endurecer e permanecer naquele local pra sempre. Duro, infeliz, estagnado, longe, mas muito longe de suas ideias e desejos futuros. Vale a pena viver a vida que não se quer viver?
Pegou papel, caneta e começou a escrever. Precisava organizar as ideias confusas de sua mente agitada e melancólica. Esse seria seu acordo íntimo, o que não dividiria, seu livro secreto, aquele que queria saltar para. A história irreal de sua nova vida.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Do Lobo





Para ler ouvindo: https://www.youtube.com/watch?v=SBjQ9tuuTJQ
Foo Fighters - The Pretender

2016

Dentro da floresta os sons das folhas que batiam em seus pelos ecoavam como canção. Ouvia seu coração palpitar e bombear sangue quente para todas as partes do corpo, principalmente para as patas, pois elas corriam selvagemente animadamente. 
Sentia cheiros diversos, cheiro da terra úmida e das folhas molhadas. Sentia principalmente o cheiro do medo, essa era a mais forte dentre todas as notas aromáticas presentes. O cheiro do medo era ácido e se misturava ao cheiro do indivíduo formando uma criação singular, um perfume original. Perfume que fazia seu estômago revirar. Ao sentir esse cheiro, a energia pulsante ganhava mais força. Sua visão ficava cada vez mais precisa, os dentes mais afiados e sentiu-se babar, rosnar. Sim, tinham provocado seu interesse. 
Já havia corrido por muito tempo e percebeu que tinha ido longe, longe demais por isto. Sua matilha estava a léguas de distância e havia entrado em terreno desconhecido, estranho. O aroma de lá era repleto do cheiro de outras vidas. Não havia nada conhecido ali. Marcou território nas árvores, arranhando algumas delas e urinando em seus pés. Sabia que era inútil, mas precisava se colocar no espaço no qual se encontrava. 
Pensou em voltar, mas estava cansado. Viu que estava vulnerável, sozinho, faminto e sedento naquele local. 
Correu para o monte mais próximo a fim de ver um pouco do terreno. O rastro do cheiro perseguido simplesmente desapareceu. Começou a duvidar de sua própria sanidade. O que procurou por tanto tempo? Já não importava mais. O que havia motivado a corrida sumiu como passe de mágica. Se tornou poeira, insignificante, uma memória como aquelas dos sonhos frágeis, que ao acordar escapam pelos dedos e deixam a confusão em seu lugar.
Mas o que o cheiro causou é que era perturbador: Até que ponto estava disposto a correr por causa de uma suposta presa? Era só mais uma, só mais uma presa ao alcance das patas, só mais um cheiro ácido da floresta, só mais um alimento dentre diversos outros. 
Se viu sozinho, mas não sentiu falta do sumiço repentino e de ter perdido a trilha, só se sentia estúpido, pois não soube identificar o que era presa do que era alimento. 
Havia confundido o mais primitivo dos impulsos. 
Foi com essa lição pra casa calmamente. Distraído, se pegou pensando no que iria jantar.

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Psicóloga que de vez em quando é contadora de histórias. Vocalista de heavy metal aposentada. Casada com a leitura (casamento em crise no momento) e amante (imperfeita) da escrita.