# Escritos
aleatórios psicodélicos da madrugada. Preciso subir.
Para ler
ouvindo: https://www.youtube.com/watch?v=K7ZqZVunCb4
2020
A xícara descansando
no pires em cima da mesa de madeira parecia poesia. Subia de sua suave
porcelana acinzentada uma tênue fumaça de quentura. A fumaça era responsável pela
dispersão do aroma amadeirado do café, que claro, acabara de ser moído e coado.
Janelas apresentavam
o cenário da floresta verde repleto de neblinas a se dissipar. Estava frio
afinal. Silêncio lá fora, quente casa adentro.
Livros
envelhecidos espalhados pela mesa deixava evidente como sua mente funcionava:
Conexões, tudo era conexões, tudo se conectava. Autor 1 citava autor 2 ou fora
influenciado pelo autor 3 e assim por diante. Que canção linda era perceber que
as vezes estamos falando das mesmas coisas, mas de formas diferentes.
Falar em
canção, seu disco, sim disco. Comprou um porque achou que era cult/porreiro/hipster
demais ter um toca-discos em casa. Que preguiça e ânimo tinha de si mesmo.
Chegava a revirar os olhos de tanto que havia se tornado um clichê. Mas gostava
disso e pensava consigo mesmo: “E quem não é?”
Voltemos ao
disco, pois bem. Esta onda de café, livros e cenas, demandava um fundo musical
que se adequasse ao estilo taciturno de que havia feito questão de criar. Que
bela história estava a contar para si mesmo.
Metal
progressivo e indie era o que gostava mais de ouvir, mas queria algo mais cru,
mais humano e tribal. “Ai que preguiça” de seus gostos peculiares e exóticos,
tinha vergonha de exibi-los, portanto ficou aliviado em ver que estava sozinho
nessa aventura. Não precisa contar com o olhar de menosprezo do outro. Não
conhecia absolutamente ninguém que ouvia Heilung.
Parecia
gozar com o achado de expressões artísticas desconhecidas, como se só ele soubesse
daquele segredo, como quem descobriu uma joia, uma pepita de ouro em um riacho
e guardou cuidadosamente só para si.
Ao colocar
para tocar, como num transe mágico, fechou os olhos. Sentia prazer nas coisas
simples, no primitivo.
E aí pensou
que talvez estivesse em sarilhos. Quem o entenderia? Quem conseguiria perceber
e entender o gosto do café, do vinho, do cheiro que embrulha o estômago e
revira as entranhas? Quem teria o seu ritmo quase complicado/singular/estranho?
Quem acompanharia seu ritmo insano de busca por prazeres peculiares dentro e
fora de si?
Já havia
jogado suas runas, seu oráculo precioso, um tempo atrás e já tinha visto o
desenrolar da história que passou. Foi avisado. Ele já sabia o final de tudo,
bem quando estava ali no começo. Saber antes não melhorou nada, mas auxiliou na
manutenção da idealização.
Abriu e
levantou os braços, dançou Heilung, dançou com os elementais presentes o que o
corpo queria dançar, ritmou em falas a sua voz corporal ancestral, celebrou sua
pele quente e pulsante e por isso despiu-se. Sentiu Deus no que era mais puro e
selvagem.
Tocou-se,
queria sentir calor. Sentou-se no chão já suado e pôs-se e beber o café.
Desceu
rasgando suas papilas e promoveu pequenos arrepios no pescoço.
Os pelos de todo
o corpo eriçaram. Sentiu, alguém estava chegando.
A porta ressoou
com um som conhecido, só podia ser ela.
Abriu a
porta e sim, era ela. Ela finalmente estava a chegar.