quinta-feira, 14 de julho de 2016

Do fim da vida





Eddie Vedder - Hard Sun
*Foto de Christopher Johnson McCandless - O filme Into the Wild foi inspirado em sua vida





A bomba veio e despedaçou cada pedaço de pele com violência inflamada. Era o fim. Explosões foram noticiadas em todas as cidades do mundo e toda a humanidade fora extinta.
Ninguém esperava por isso, estavam todos confortáveis em suas salas, em suas cozinhas preparando a próxima refeição com a tv ligada. Absolutamente nada no mundo deveria ser tão injusto assim. 
Alguns meses antes, uma curva provocou uma minúscula mudança em tamanha tragédia. Um garoto de uma cidade pequena foi aos meios de comunicação e informou que o fim chegaria a todos. Vidência? Sabedoria precoce? Loucura? Ninguém sabia. Ciente de que não seria facilmente ouvido, o menino (de uns 13 anos), escreveu um texto com o título: "É proibido ser infeliz, pois o fim vem". Ele imprimiu milhares de cópias desse texto e passou a espalhar os papéis pela cidade, que ficou salpicada de branco. O texto narrava sobre o fim inevitável e das formas de escape, que seriam inúteis, mas que ainda assim poderiam fazer do fim algo menos traumático. Uma vida com sentido, afinal. 
Poucos leram, pois diziam que era óbvio demais, que todos sabiam disto, que se tratava de marketing de auto ajuda, que estavam conscientes e que o silêncio deles era pura negação. 
Uma garota, que estava sentada em um café lendo seu livro, se assustou quando o papel do texto voou em sua direção (mais precisamente no seu rosto), e ficou um tanto atordoada por ter sido retirada de sua história tão bruscamente. Resolveu lê-lo. Ao terminar de ler teve um insight, levantou a cabeça e observou que todas as pessoas na rua traziam consigo algo perturbadoramente comum: Uns andavam rapidamente em direções desconhecidas, outros andavam mexendo nos celulares, uns poucos se alimentavam sentados olhando para o nada, outros passeavam com os cães... O similar era que todos, sem exceção, pareciam estar em um estranho transe. Percebeu que se quisesse chamar a atenção deles teria que gritar, alguns tomariam susto e outros nem a ouviriam. No que pensavam? Cada um estava imerso em seu universo mental/paralelo tão fixamente, que pareciam enfeitiçados, ela também estaria se não tivesse sido despertada. "Corremos, corremos e corremos para a mesma direção, fazendo tudo igual aos nossos pais, seguindo o mesmo modelo de felicidade de todos." - pensou.
A garota se viu como um deles, se identificou alienada. 
Foi pra casa e decidiu traçar uma rota de fuga acima das montanhas, muito longe de casa. Seguiu o que o texto dizia, seria feliz antes do fim, e pra ela o fim perfeito seria perto de sua montanha predileta. O fim vem, e por isso, eu vou. 
Enquanto isso, todos continuavam cozinhando, trabalhando em empregos que detestavam - ou não, sendo felizes com suas escolhas ou projetando-as para o futuro: "Quando eu comprar aquela casa serei feliz". 
"Todos fazem escolhas até quando se negam a isso, pois optam por não escolher. Não escolher é também uma escolha." Afirmou a si mesma, se referindo a como agiu durante toda a sua vida. 
Na contramão de seus pares, resolveu vender tudo e juntar uma quantia razoável para fugir sozinha para a tal montanha. Quando falou de seus planos para os outros só ouviu sobre como não daria certo, de que o fim demoraria, que se não desse certo na montanha ela teria que voltar, que precisaria de uma casa ao voltar, de que iria sofrer longe de seus conhecidos, que era perda de tempo, que era imatura. Resumindo, ouviu que o melhor a fazer era se aninhar no conhecido para ter uma velhice tranquila. 
Só que não entendiam que não há tranquilidade no fim e que esse fim virá criativamente para cada indivíduo na terra, para uns cedo demais, para outros muito tarde e na esmagadora maioria das vezes seria uma incógnita. A garota sabia que precisaria tentar, ao invés de permanecer esperando o momento em que descansaria em seu casarão/caixão.
Conseguiu após algum tempo partir para a montanha, seu universo predileto no mundo, e sentiu que ao fazer a escolha que se deseja, independente da opinião dos outros, é libertador.
E o fim veio para todos como anunciado: para os que estavam em suas casas, para os que estavam sentados no sofá, para os que trabalhavam, para aqueles que só usavam perfumes bons em festas especiais, para o menino que escreveu o texto, para aqueles que prometiam que era a última dose, para os que se achavam velhos, para os que se achavam feios, para os que não acreditavam em si mesmos e resolveram desistir de suas escolhas, para o rapaz apaixonado que não insistiu no romance por puro orgulho, para a mulher que só se envolvia por dinheiro, pro pai que abandonou o seu filho, para os internados nos hospitais, para os "bons", para os "maus"...
E também para a garota, que estava sentada na montanha de olhos fechados, no exato momento que a bomba explodiu. O fim alcançou a todos, os felizes e infelizes seres viventes desta terra, e nunca, nunca mais estes poderiam retornar ao ponto anterior disto, estava de fato tudo acabado. 
Alguns diriam que suas vidas foram vividas da melhor e mais completa forma possível, mas infelizmente nem todos podiam dizer o mesmo.

O mundo inteiro se esvai (em um segundo e bruscamente), quando nós, platéia única e individual do mundo inteiro, nos vamos. Você carrega e é, o seu/nosso mundo inteiro.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Harry



Para ler ouvindo: https://www.youtube.com/watch?v=Y4Ry_56bNGw
JORN - Living with Wolves


Ele fechou os olhos e ficou naquele vácuo do sono, cansaço o acompanhava por um tempo. Olhou para todos os lados e se viu cercado de vida, mas a vida real, não a que sempre desejou. Não se referia as dificuldades da vida, mas a vida em si. Tudo parecia uma grande piada, uma piada ruim, de mal gosto e insistentemente contada em uma mesa com restos do jantar. Mais um gole do vinho barato, mais uma taça, mais um dia e mais um final de dia. Tudo ao contrário, tudo opostamente milimetrado para a encenação da peça ruim que tinha se tornado sua vida. Ao fechar-se as cortinas das pálpebras, um velho dia se encerrava e um novo dia o violentava com o sol da manhã. Acreditava que a claridade era o impulso natural do dia que o forçava a fazer algo, mesmo que esse algo não significasse absolutamente nada. Olhou pra janela. E o que via era diferente das imagens que viu quando criança, agora era diferente, via prédios e -eis aí a grande piada- algo ali era bastante similar. O vazio da vista era preciso, cheio de coisas que não havia escolhido, alheias a ele. Se perguntou o porquê de estar ali. Naquela época, naquele dia, naquela estação, naquela cidade e com aquelas questões. Mais um dia se acabou. Abriam-se as cortinas, fechavam-se as cortinas e nada, nada o fazia acreditar que o espetáculo era de fato importante. Inútil- pensava consigo mesmo. Até quando colaboraria para que as coisas seguissem rumo ao precipício? Até quando largaria as mãos do volante e taparia os olhos? Até quando ficaria satisfeito com os aplausos dos espectadores?
Criou pra si histórias, histórias com personagens interessantes, personagens que não sabiam desistir porque o fim era certo e era bom. Mas na vida real é esta uma possibilidade? Claro que não. Seus sonhos sempre foram irreais porque sempre se sentiu fora do contexto, fora do usual, fora das rimas. Se fosse feito um poema o seria feito no tom de Augusto dos Anjos: cru, intenso, visceral, triste. Uma vida colocada no livro que não queria estar, e que se pudesse escolheria outro. Opa, é possível? É possível desenhar a própria vida como se desenha um boneco de palitos? Seria possível fazer escolhas, mesmo que absurdas, e poder tocá-las na realidade? Era de fato possível realizar sonhos? Não sabia ao certo. O que sabia era que se sentia preso, como se os pés estivessem enterrados em cimento fresco. Se ficasse ali iria endurecer e permanecer naquele local pra sempre. Duro, infeliz, estagnado, longe, mas muito longe de suas ideias e desejos futuros. Vale a pena viver a vida que não se quer viver?
Pegou papel, caneta e começou a escrever. Precisava organizar as ideias confusas de sua mente agitada e melancólica. Esse seria seu acordo íntimo, o que não dividiria, seu livro secreto, aquele que queria saltar para. A história irreal de sua nova vida.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Do Lobo





Para ler ouvindo: https://www.youtube.com/watch?v=SBjQ9tuuTJQ
Foo Fighters - The Pretender

2016

Dentro da floresta os sons das folhas que batiam em seus pelos ecoavam como canção. Ouvia seu coração palpitar e bombear sangue quente para todas as partes do corpo, principalmente para as patas, pois elas corriam selvagemente animadamente. 
Sentia cheiros diversos, cheiro da terra úmida e das folhas molhadas. Sentia principalmente o cheiro do medo, essa era a mais forte dentre todas as notas aromáticas presentes. O cheiro do medo era ácido e se misturava ao cheiro do indivíduo formando uma criação singular, um perfume original. Perfume que fazia seu estômago revirar. Ao sentir esse cheiro, a energia pulsante ganhava mais força. Sua visão ficava cada vez mais precisa, os dentes mais afiados e sentiu-se babar, rosnar. Sim, tinham provocado seu interesse. 
Já havia corrido por muito tempo e percebeu que tinha ido longe, longe demais por isto. Sua matilha estava a léguas de distância e havia entrado em terreno desconhecido, estranho. O aroma de lá era repleto do cheiro de outras vidas. Não havia nada conhecido ali. Marcou território nas árvores, arranhando algumas delas e urinando em seus pés. Sabia que era inútil, mas precisava se colocar no espaço no qual se encontrava. 
Pensou em voltar, mas estava cansado. Viu que estava vulnerável, sozinho, faminto e sedento naquele local. 
Correu para o monte mais próximo a fim de ver um pouco do terreno. O rastro do cheiro perseguido simplesmente desapareceu. Começou a duvidar de sua própria sanidade. O que procurou por tanto tempo? Já não importava mais. O que havia motivado a corrida sumiu como passe de mágica. Se tornou poeira, insignificante, uma memória como aquelas dos sonhos frágeis, que ao acordar escapam pelos dedos e deixam a confusão em seu lugar.
Mas o que o cheiro causou é que era perturbador: Até que ponto estava disposto a correr por causa de uma suposta presa? Era só mais uma, só mais uma presa ao alcance das patas, só mais um cheiro ácido da floresta, só mais um alimento dentre diversos outros. 
Se viu sozinho, mas não sentiu falta do sumiço repentino e de ter perdido a trilha, só se sentia estúpido, pois não soube identificar o que era presa do que era alimento. 
Havia confundido o mais primitivo dos impulsos. 
Foi com essa lição pra casa calmamente. Distraído, se pegou pensando no que iria jantar.

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Psicóloga que de vez em quando é contadora de histórias. Vocalista de heavy metal aposentada. Casada com a leitura (casamento em crise no momento) e amante (imperfeita) da escrita.