domingo, 27 de julho de 2014

Demian






Para ler ouvindo : https://www.youtube.com/watch?v=d81M1guejXQ
Vinicius de Moraes - Canto de Ossanha


2014


Ventava fora da cabana um vento gélido. La fora pinheiros balançavam violentamente, parecendo frágeis e os ventos de inverno os chicoteavam. Demian* estava convenientemente protegido em sua cabana, iluminada por pequeninos abajures. 
Que lugar seguro - Demian pensou. 
Se aproximou da janela e passou a mão no vidro, para tirar o vapor que o impedia de olhar o começo de uma nova tempestade. Sorriu. Adorava ouvir o barulho da chuva. A cabana era um lugar novo que ele adquirira para ficar sozinho e em paz, meditando nos seus livros e as vezes, trazendo amigos para beber um vinho, fumar cigarros e ouvir música.
Mas de repente, como um daqueles acontecimentos inevitáveis promovidos pelo sarcasmo do destino, algo inesperável aconteceu: Um sopro quente se aproximou. Um sopro que Demian já conhecia, porém, estava velho e estranho. Esse vento costumava ser frio, agora estava quente.  Era possuidor de um cheiro bom, mas agora, nada exalava. Simplesmente adentrou a sala sem ser convidado.
-Por onde você, Vento velho, entrou? Deixei alguma brecha aberta? Cadê seu cheiro que outrora me devorou?
Demian fechou os punhos e torceu os dedos, passando um nos outros, nervoso. Não estava tão seguro quanto pensava.
Veio imediatamente à memória o perfume desse Vento. Era adocicado e com leves toques cítricos. Um casamento/encontro de aromas não necessariamente perfeitos, porém únicos. E hoje, esse vento trouxera novidades, estava quente e sem cheiro. Como pode um sopro frio se tornar quente? Não ter mais cheiro?
- O que se deu para tamanha mudança?  Talvez... talvez esteja insípido! Não, perdão, insipidez é falta de gosto... Mas... Até que faz sentido... 
Silêncio.
Ventos não respondem.
Demian sabia disso, sempre soube. Havia uma barreira silenciosa entre ambos desde o começo. E as sucessões de acontecimentos trágicos rapidamente vieram à mente de Demian. Lembrou que do corpo quente saíram ondas de calor, ondas estas que se atrelaram ao ar do ambiente, tornando-se cada vez maior. No dia, Demian abriu os braços e sentiu. Sentiu no corpo o insano dessa vida. Pensou no absurdo que é não se poder ver o Vento e ao mesmo tempo poder senti-lo. Só que, ainda inebriado, se deu conta de que estava sozinho. Sozinho nessa experiência que poderia ser de algum modo transformadora.
Faz sentido viver algo e não poder dividi-lo?  Aliás, sentir, nesse caso específico, seria da ordem do individual ou do coletivo? Nesse dia fechou os braços e olhou para os lados, foi-se embora assim que pôde.
Confuso com o retorno desse Vento passado, Demian pensou que qualquer pessoa sã, em seu lugar, fecharia a janela... não é?
- Vento, você ainda é o mesmo?  Parece diferente...
Demian não sabia, mas esse Vento, caso mantivesse as mesmas propriedades de antes, ao passar por ele em um novo dia, já havia se tornado inevitavelmente outro. Pois se configurou o ato em um cenário singular, atual. Não havia possibilidade alguma de que esse Vento provocasse tanta comoção como provocara antes, pois já não era mais o mesmo, porque o momento não era mais o mesmo... e ainda que fosse, Demian havia mudado. Embora ainda usasse seu pijama antigo e permanecesse com suas velhas manias: café, exercícios noturnos e leituras, Demian estava em um novo momento. Havia andado por outros caminhos, visto e sentido novos Ventos, aprendera muitas coisas...
Vento e Demian, de frente um pro outro, já não eram mais Vento e Demian. Eram agora completos estranhos, frutos oriundos das infinitas formas e possibilidades que um homem nesta vida adquire ao longo do caminho da sua própria existência.
Uma tempestade acontecia lá fora. Sentiu medo de que ela entrasse junto com o Vento, que já estava lá, e desorganizasse tudo. Fecha-se a janela?
Demian tentou pensar rapidamente na resposta e chegou a conclusão de que coisas importantes não vão embora, permanecem. Pois o que é necessário fica, não dá meia volta. As experiências gratificantes tendem e estimulam repetições. 
Finalmente falou: - O necessário teria ficado. 
O Vento percebendo o olhar de Demian se retira. 
Os músculos se relaxaram imediatamente. O perigo passou. 
Demian sabia, esse Vento não entraria nunca mais na sua cabana, porque verdadeiramente nunca esteve lá. E mais tarde, através de uma epifania enquanto estava fazendo seu chá, entendeu que o cheiro do Vento nunca mudou, isso seria impossível. Ele, Demian, é que não podia mais senti-lo.
Sentou-se e pôs-se a escrever.


O nome Demian foi inspirado no livro de Herman Hesse*


terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Da dor


Photo by Bianca Salgado from Pexels

Para ler ouvindo : https://www.youtube.com/watch?v=Ud4HuAzHEUc
Three Days Grace - Pain 


2014

Um dia acordou com o pescoço doendo. Torcicolo.
Passou o dia sentindo a dor que não melhorava, tomou analgésico e nada.
No dia seguinte acordou não só com a dor, mas também com o pescoço tenso. Quanto mais doía, mais tenso ficava e a tensão provocava novamente dor.
Dor. Dor sem cura, dor sem remédio. Provavelmente era o travesseiro, pensava.
Um mês se passou e a dor a acompanhava. Estava sempre lá, constantemente.
Aos poucos a dor foi ganhando um espaço que não tinha. A menina já não saía mais, não dormia bem, não sorria. Essa dor se tornou parte do seu dia a dia. Procurou médicos que receitavam remédios mais fortes, mas isso só a fazia dormir e acordar com mais dor.
Um círculo, um ciclo, um cíclico.
A dor constante virou um presente/ausente. Presente porque estava lá, ausente porque moldou o dia e transformou a jornada, se tornando não um problema, mas parte da vida. A dor ganhou espaço.
Acordou, após meses de dor, resolvida a dar um fim a isso. Já não lembrava como a dor se iniciou, mas movida por um instinto de sobrevivência seguiu em frente.
Andou muito, muito, muito. Encontrou na subida de um morro uma senhora idosa, sábia e de voz doce e mansa. Iniciou uma conversa preguiçosa sobre sua dor. Apresentou sua queixa.
A velha sábia sorriu e disse: Querida, pare de olhar pra trás.

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Psicóloga que de vez em quando é contadora de histórias. Vocalista de heavy metal aposentada. Casada com a leitura (casamento em crise no momento) e amante (imperfeita) da escrita.