domingo, 8 de novembro de 2015

Do Malandro


Para ler ouvindo: https://www.youtube.com/watch?v=Nm5N4iFLU0g
Zeca Pagodinho - Quando a Gira Girou


Chovia e os paralelepípedos da ladeira escorregavam um pouco. O par de sapatos brancos e vermelhos subia animadamente, nada tiraria o vigor de uma caminhada pra alegria. Porque a felicidade era algo a ser perseguido, lutado e conquistado, ele sabia. Uma chuva não atrapalharia. O calor da fumaça do cigarro esquentava o corpo e a cachaça queimava a garganta, com isso, já tinha o fogo que precisava.  Não temia nada e nem ninguém, e eis o reflexo de seu sentimento humano: um tantinho de arrogância. Encontraria todos lá em cima e quem sabe encontraria também Teresa. Linda, sexy e perigosa. Todas as vezes que conversavam Teresa o tratava mal e em todas às vezes ele ria, até perceber que estava completamente apaixonado. Dessas paixões momentâneas que ele tanto prezava e que fazia a vida ficar interessante. A cachaça ajudava-o a dar o molejo seguro que precisava. Sóbrio ficava mau humorado e inseguro, a cachaça dava cores a uma cidade cinza, não de clima, mas de cores nos prédios, pistas, bares e etc. Tinha posto na cabeça que a teria, “Teria Teresa” nem que tivesse que ter Teresa só o maltratando. Depois dos insultos vinha o tal sorriso de canto de boca que só dava mais energia a investida. Era um jogo, um jogo agressivo e suave, não muito ríspido e nem frio, só pra dar graça. O jogo o excitava. Já tinha visto a aliança na mão esquerda dela, se perguntou se seria só um anel, mas isso não o impediria. Aliás, a aliança fazia também parte do jogo, da dança das saias e dos sapatos coloridos. Ao chegar, pediu pra que dançasse com ele, ela não quis (ficou evidente), mas aceitou por educação. Ele colocou a mão na cintura fina de Teresa e a apertou contra o corpo. Ela usava um vestido vermelho e ele imediatamente pensou que era sua cor predileta, depois do masculino azul e verde. Ele usava branco, achava mais adequado a ele, se sentia bonito e “caro”, tipo “gente fina”.  Dançou a madrugada toda, rodopiou, girou e viu o sol raiar. Teresa já não parecia tão segura quanto antes, ele sabia, nessa noite a conquistou de fato. Nessa hora ele percebeu que precisava ir, sair antes que ela o desejasse mais, saiu correndo sem olhar pra trás. O olhar de procura de Teresa iria dar com a falta, e assim, ela seria sua. A próxima dança, o próximo soar do sino, a próxima lua e o seu futuro encontro.

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Psicóloga que de vez em quando é contadora de histórias. Vocalista de heavy metal aposentada. Casada com a leitura (casamento em crise no momento) e amante (imperfeita) da escrita.