Ele fechou os olhos e ficou naquele vácuo do sono, cansaço o acompanhava por um tempo. Olhou para todos os lados e se viu cercado de vida, mas a vida real, não a que sempre desejou. Não se referia as dificuldades da vida, mas a vida em si. Tudo parecia uma grande piada, uma piada ruim, de mal gosto e insistentemente contada em uma mesa com restos do jantar. Mais um gole do vinho barato, mais uma taça, mais um dia e mais um final de dia. Tudo ao contrário, tudo opostamente milimetrado para a encenação da peça ruim que tinha se tornado sua vida. Ao fechar-se as cortinas das pálpebras, um velho dia se encerrava e um novo dia o violentava com o sol da manhã. Acreditava que a claridade era o impulso natural do dia que o forçava a fazer algo, mesmo que esse algo não significasse absolutamente nada. Olhou pra janela. E o que via era diferente das imagens que viu quando criança, agora era diferente, via prédios e -eis aí a grande piada- algo ali era bastante similar. O vazio da vista era preciso, cheio de coisas que não havia escolhido, alheias a ele. Se perguntou o porquê de estar ali. Naquela época, naquele dia, naquela estação, naquela cidade e com aquelas questões. Mais um dia se acabou. Abriam-se as cortinas, fechavam-se as cortinas e nada, nada o fazia acreditar que o espetáculo era de fato importante. Inútil- pensava consigo mesmo. Até quando colaboraria para que as coisas seguissem rumo ao precipício? Até quando largaria as mãos do volante e taparia os olhos? Até quando ficaria satisfeito com os aplausos dos espectadores?
Criou pra si histórias, histórias com personagens interessantes, personagens que não sabiam desistir porque o fim era certo e era bom. Mas na vida real é esta uma possibilidade? Claro que não. Seus sonhos sempre foram irreais porque sempre se sentiu fora do contexto, fora do usual, fora das rimas. Se fosse feito um poema o seria feito no tom de Augusto dos Anjos: cru, intenso, visceral, triste. Uma vida colocada no livro que não queria estar, e que se pudesse escolheria outro. Opa, é possível? É possível desenhar a própria vida como se desenha um boneco de palitos? Seria possível fazer escolhas, mesmo que absurdas, e poder tocá-las na realidade? Era de fato possível realizar sonhos? Não sabia ao certo. O que sabia era que se sentia preso, como se os pés estivessem enterrados em cimento fresco. Se ficasse ali iria endurecer e permanecer naquele local pra sempre. Duro, infeliz, estagnado, longe, mas muito longe de suas ideias e desejos futuros. Vale a pena viver a vida que não se quer viver?
Pegou papel, caneta e começou a escrever. Precisava organizar as ideias confusas de sua mente agitada e melancólica. Esse seria seu acordo íntimo, o que não dividiria, seu livro secreto, aquele que queria saltar para. A história irreal de sua nova vida.
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